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ÁRVORE DO CONHECIMENTO Cana-de-Açucar      Equipe editorial Ajuda

Adubação - resíduos alternativos

Autor(es): Raffaella Rossetto ; Antonio Dias Santiago

Diversos materiais são obtidos a partir da produção de açúcar e álcool em uma usina sucroalcooleira. Entretanto, o conhecimento da composição e dos possíveis usos desses materiais em lavouras possibilitou sua utilização na forma de fertilizantes organo-minerais e fertirrigantes. Isso proporcionou um maior controle ambiental e relevante economia na adubação de canaviais.

Dois resíduos agroindustriais empregados como fertilizantes na produção de cana-de-açúcar são a vinhaça e a torta de filtro. Apesar de seus valores nutricionais serem conhecidos desde a década de 1950, sua utilização teve início apenas na década de 1970 e se intensificou em 1999, quando a mudança cambial e a elevação dos preços dos fertilizantes químicos encareceram a adubação e a questão ambiental ganhou mais espaço.

Outros resíduos aproveitados na agricultura são: cinza da queima do bagaço - material rico em potássio - (Figura 1) e o bagaço ou bagacilho da cana.


Fig. 1. Aplicação de cinzas.
Foto: Raffaella Rossetto.

Vinhaça

A vinhaça é um resíduo gerado na produção do álcool. Para cada litro de álcool são produzidos cerca de dez a 13 litros de vinhaça, com diferentes concentrações de potássio, de acordo com o material de origem (mosto). A vinhaça originária da fermentação do melaço, resíduo da fabricação do açúcar, possui uma maior concentração em relação à vinhaça gerada na fermentação do caldo de cana.  Na Tabela 1 são apresentadas as composições químicas de vinhaças oriundas de diferentes tipos de mostos.

 Tabela 1. Composição química de vinhaças conforme o tipo de mosto.

(1) DBO: Demanda bioquímica de oxigênio.
(2) DQO: Demanda química de oxigênio.
Fonte: Marques (2006).

As diversas técnicas e métodos para aplicação de vinhaça em canaviais, via fertirrigação, estão descritas, a seguir.

Sulcos de infiltração: através de uma adutora principal a vinhaça - associada aos demais efluentes líquidos como água de condensação, água de lavagem da cana etc - é retirada de tanques de contenção e lançada em canais principais (Figuras 2, 3 e 4) que margeiam os talhões. Desses canais, o material atinge os sulcos de irrigação abertos nas entrelinhas do canavial. Este método é o de menor custo, já que não há consumo de energia. Porém, o sistema é pouco preciso em sua distribuição e pode estabelecer pontos de encharcamento no campo.


Fig. 2. Canal de vinhaça.
Foto: Raffaella Rossetto.

Fig. 3. Tanque de vinhaça impermeabilizado.  
Foto: União dos Produtores de Bioenergia.

 


Fig. 4. Tubulação para condução de vinhaça.
Foto: Daniel Nassif.

 
Caminhões-tanque: o caminhão percorre o campo lançando a vinhaça por meio de bombas acopladas à tomada de força ou acionadas por motores independentes, ou por gravidade através de um sistema de vazão na parte posterior do caminhão (Figura 5). Este sistema é de rápida implantação e de fácil operação. Entretanto, apresenta elevado consumo de combustível, além de promover a compactação do solo e causar danos aos rizomas.


Fig. 5. Aplicação de vinhaça por caminhão-tanque.
Foto: Raffaella Rossetto.

Aspersão convencional (moto-bombas): a vinhaça é tomada dos canais principais por meio de moto-bombas, que alimentam tubulações principais e laterais, onde se encontram os aspersores. As tubulações laterais são movimentadas ao longo dos canais principais a fim de cobrir toda a área. A principal vantagem deste sistema é permitir um melhor controle da quantidade de resíduo, bem como sua distribuição mais homogênea, em relação aos sulcos de infiltração.

Aspersão com canhão hidráulico: a vinhaça é lançada por meio de um aspersor setorial tipo canhão, montado sobre uma carreta (ou carretel autopropelido), acionado por uma moto-bomba que succiona a vinhaça diretamente do canal principal (Figura 6). Este sistema necessita de menos manutenção e consome menor volume do material devido à melhor distribuição.


Fig. 6. Aspersão com canhão hidráulico.
Foto: Raffaella Rossetto.

A dose de vinhaça a ser aplicada no canavial é definida com base no seu teor de potássio e na análise química do solo. Para o Estado de São Paulo, a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) definiu, por meio da Portaria P. 4231, a dose a ser aplicada para cada talhão em função da saturação de potássio no cálculo da capacidade de troca catiônica (CTC).

A vinhaça é utilizada principalmente nas soqueiras, devido à época em que é produzida na agroindústria, fornecendo todo o K2O e parte do nitrogênio necessários à cana. Em muitos solos, é necessário complementar a vinhaça com adubos nitrogenados.  

A aplicação de vinhaça em doses adequadas oferece uma série de benefícios, como:

  • melhoria das propriedades físicas, químicas e biológicas do solo;
  • aumento da matéria orgânica e microflora do solo;
  • facilita a mineralização do nitrogênio;
  • melhoria nas condições gerais de fertilidade do solo;
  • aumento do poder de retenção de água;
  • aumento da produtividade da cana.

Entretanto, o excesso de vinhaça provoca retardamento do processo de maturação da planta, o que leva à queda no teor de sacarose e compromete a qualidade final da cana. Além disso, o uso contínuo de vinhaça pode levar à contaminação do lençol freático através da lixiviação de ânions em função do excesso de potássio.

Torta de filtro

A torta de filtro  (Figura 7) é um importante resíduo da indústria sucroalcooleira proveniente da filtração do caldo extraído das moendas no filtro rotativo. Antigamente, era um resíduo obtido apenas na produção do açúcar, mas, atualmente, as novas unidades alcooleiras introduziram o filtro rotativo e, assim, também obtém o resíduo torta de filtro.


Fig. 7. Torta de filtro.
Foto: Raffaella Rossetto. 

A concentração da torta de filtro é constituída de cerca de 1,2 a 1,8% de fósforo e cerca de 70% de umidade, que é importante para garantir a brotação da cana em plantios feitos em épocas de inverno nas Região Sul e Sudeste. A torta também apresenta alto teor de cálcio e consideráveis quantidades de micronutrientes.

Em torno de 50% do fósforo da torta pode ser considerado prontamente disponível. O restante será mineralizado mais lentamente. A torta é empregada principalmente em cana-planta, nas dosagens de 80 a 100 toneladas por hectare (torta úmida); em área total, de 15 a 35 toneladas por hectare (sulco) e 40 a 60 toneladas por hectare na entrelinha das soqueiras, substituindo parcial ou totalmente a adubação fosfatada, dependendo da dose de P2O5 recomendada.

A elaboração da compostagem da torta de filtro adicionando gesso, cinzas de caldeiras e palhada, tem agregado valor à torta de filtro, melhorando sua concentração em nutrientes e reduzindo sua umidade, o que pode ser vantajoso para o transporte a distâncias maiores e desvantajoso para plantios em épocas de estigem.

A torta de filtro é produzida na ordem de 2,5 a 3,5% de cana moída e apresenta elevada umidade, teor de matéria orgânica, fósforo, cálcio, magnésio e nitrogênio. A Tabela 2 apresenta a composição química de 100 gramas de torta de filtro.

Tabela 2. Composição química aproximada de 100
gramas d
e torta de filtro.

Fonte: Paranhos (1987) e Vitti et al. (2006) adaptado
pelo autor.

A aplicação de torta de filtro em área total, no sulco ou nas entrelinhas da cana-soca é uma prática usual, facilitada pelo desenvolvimento de implementos próprios, como carretas para aplicação e, mais recentemente, devido ao desenvolvimento de plantadeiras mecanizadas com compartimento para a torta. Existem três formas básicas de utilização da torta de filtro como fertilizante orgânico, que estão descritas, abaixo:

  • aplicação em superfície total nas áreas de renovação dos canaviais. Grandes quantidades são adicionadas ao solo e, posteriormente, incorporadas por meio de gradagens;
  • distribuição nas entrelinhas da cana-soca e incorporações por meio de cultivadores de discos;
  • aplicação nos sulcos de plantio (Figura 8). Menores quantidades de torta de filtro (15 a 35 toneladas por hectare da torta úmida) são distribuídas, levando-se em conta as quantidades de nutrientes que estão sendo incorporados ao solo, principalmente o fósforo.


Fig. 8. Aplicação de torta de filtro no sulco de plantio.
Foto: União dos Produtores de Bioenergia.

A torta deve ser priorizada para os solos arenosos, com baixa matéria orgânica. É importante salientar que a torta não contém todos os nutrientes necessários para a cana-de-açúcar. Portanto, é importante avaliar uma complementação mineral. Sua utilização pode resultar em um melhor desenvolvimento da planta (Figura 9).

Fig. 9. Diferença no desenvolvimento da cana com e sem
aplicação de torta de filtro.
Foto: Raffaella Rossetto.

Outros resíduos orgânicos podem ser utilizados no plantio da cana como estercos animais, cama de frango e resíduos da produção de lisina, amidos e glutamato monossódico. 

Fontes consultadas:

MARQUES, M. O. Aspectos técnicos e legais da produção, transporte e aplicação de vinhaça. In: SEGATO, S. V. et al. (Org.). Atualização em produção de cana-de-açúcar. Piracicaba: CP 2, 2006. p. 369-375.

PARANHOS, S. B. (Coord.). Cana-de-açúcar: cultivo e utilização. Campinas: Fundação Cargill, 1987.

VITTI, G. C.; OLIVEIRA, D. B. de; QUINTINO, T. A. Micronutrientes na cultura da cana-de-açúcar. In: SEGATO, S. V. et al. (Org.). Atualização em produção de cana-de-açúcar. Piracicaba: CP 2, 2006. p. 121-138.

 

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