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Formação de voçorocas

Autor(es): Marco Antonio Ferreira Gomes ; Heloisa Ferreira Filizola ; René Boulet

Sulcos, ravinas e voçorocas - isto é formação de grandes buracos de erosão causados pela chuva e intempéries, em solos onde a vegetação é escassa e não mais protege o solo, que fica cascalhento e suscetível de carregamento por enxurradas - estão presentes em praticamente todo o Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil e geralmente estão associados ao uso do solo, ao substrato geológico, ao tipo de solo, às características climáticas, hidrológicas e ao relevo. O desenvolvimento das ravinas e voçorocas descrito na literatura brasileira é geralmente atribuído a mudanças ambientais induzidas pelas atividades humanas.

A grande maioria de trabalhos na literatura sobre as ravinas e voçorocas mostra que sua ocorrência está associada a formações sedimentares arenosas, mas há também exemplos de voçorocas em solos provenientes de rochas cristalinas. Segundo alguns trabalhos, a geologia das regiões do embasamento cristalino, com suas abruptas variações laterais, influi intensamente na propagação do voçorocamento. Contatos geológicos, diques ou até mesmo bandas internas à rocha de composição diferente são suficientes para acelerar, impedir ou desviar a propagação de uma voçoroca.

No Estado de São Paulo, os trabalhos desenvolvidos pelo DAEE e pelo IPT mostram que a predominância de erosões lineares está associada aos arenitos com cimentação carbonática, pertencentes às formações Marília e Adamantina do Grupo Bauru. As formações areníticas Caiuá, Santo Anastácio, Piramboia e Botucatu apresentam menores concentrações de ocorrências erosivas por unidade de área.

A influência do relevo no desenvolvimento de ravinas e voçorocas no Estado de São Paulo é enfatizada por vários estudiosos, que as relacionam especialmente à forma e à declividade das vertentes. Em estudos realizados verificou-se a ocorrência de ravinas e voçorocas nas proximidades de Casa Branca e nas Folhas de Piracicaba, Rio Claro, São Pedro e Itirapina, e que 95% dessas erosões se desenvolveram em encostas convexas. Conclusão semelhante foi observada em voçorocas da cidade de Franca e na região de Casa Branca.

Já em estudos realizados na bacia do Rio Maracujá (MG)  e na alta bacia do Rio Araguaia (GO/MT), mostraram-se que grande parte das voçorocas se desenvolve nos setores côncavos das cabeceiras de drenagem, com formas anfiteátricas (concavidades ou “hollows”). Estas formas propiciam a convergência natural das águas superficiais e subsuperficiais, favorecendo os movimentos de massa e o desenvolvimento de voçorocas.

As voçorocas atuais, que são mais freqüentes nas concavidades do relevo, muitas vezes representam feições erosivas antigas, numa prova de que a erosão é recorrente e que tende a avançar pelas mesmas rotas já seguidas anteriormente, certamente devido ao condicionamento hídrico subsuperficial. Tal fato foi comprovado em estudos que constataram que uma das voçorocas estudadas segue a trajetória de um antigo canal erosivo.

Curva de nível cortada pela voçoroca

Foto: Heloisa Filizola 

Chama-se, também, a atenção para voçorocas com crescimento não concordante com o gradiente topográfico local, que conduziu ao estudo da hidrologia subterrânea, dada a impossibilidade dos fluxos superficiais explicarem esta propagação anômala. Dados de levantamento geofísico por eletrorresistividade sugerem que o crescimento desta voçoroca se deu em direção a uma zona subsuperficial com grande afluxo de água subterrânea. Levantamentos de campo demonstraram que estes afluxos de água acontecem ao longo de estruturas geológicas, principalmente fraturas e falhas.

Quanto à influência da cobertura pedológica no desenvolvimento de ravinas e voçorocas, observa-se concordância no que se refere a maior suscetibilidade dos solos de textura arenosa e média. Apesar de mais restrita, há possibilidades de desenvolvimento de ravinas e voçorocas em solos argilosos como os Latossolos Vermelho Escuro observados na região de Casa Branca. Neste caso, o desenvolvimento de voçorocas deve-se principalmente à presença de um horizonte C altamente erodível, proveniente da alteração de arenitos feldspáticos com intercalações de argilitos e siltitos pertencentes à Formação Aquidauana, que facilita o aprofundamento erosivo e a interceptação do lençol freático, desenvolvendo fenômenos de piping (processos de erosão interna no solo).

Conclusão semelhante é manifestada com relação ao desenvolvimento de voçorocas em terrenos cristalinos constituídos por granitóides da região de Cachoeira do Campo, Minas Gerais, que considera como principal condicionante a existência de um horizonte C de textura arenosa pouco coerente e extremamente erodível.

 

Ravina inicial cortada pela voçoroca Granada

Foto: Heloisa Filizola 

 

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