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Consumo de feijão

Autor(es):  Alcido Elenor Wander Carlos Magri Ferreira

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Na análise do consumo de feijão no Brasil, primeiramente deve-se ressaltar que, apesar de importante, o feijão tem merecido pouca atenção por parte daqueles que estudam a oferta e a demanda de alimentos. Dessa forma, há muitos questionamentos, mas alguns pontos são de consenso, por exemplo: sabe-se que o consumo de feijão varia conforme a região, local de moradia e condição financeira do consumidor, com o tipo e cor de grãos entre outros aspectos. De uma forma simplificada, pode-se dizer que o consumo médio per capita de feijão na década de 1960 foi de 23 kg/habitante/ano, enquanto nas décadas de 1970, 1980 e 1990 foi, respectivamente de, 20, 16 e 17 kg/habitante/ano. Por outro lado, enquanto no período de 1974 a 1975, o consumo metropolitano per capita foi de 16,5 kg/ ano, o consumo rural foi quase o dobro, 32 kg/ ano.

Os dados conjunturais não permitem separar o consumo per capita de caupi e de feijão comum, entretanto os levantamentos feitos nos períodos de 1987 a 1988 e de 1995 a 1996, em quatro capitais das regiões Norte e Nordeste, apontam que ocorreu um aumento de consumo de caupi em Belém (820%) e Recife (338%), enquanto Fortaleza, capital de maior consumo (10 kg/hab/ano), e Salvador, mostraram um decréscimo de 12% e 11%, respectivamente. No mesmo estudo, considerando sete metrópoles de outras regiões, o consumo de caupi aumentou 10%.

Embora não se disponha de dados recentes, sabe-se que na década de 1960 de 40% do consumo total era de produto não comprado, obtido, principalmente de produção própria, além de doações dos produtores para familiares ou de troca por outreos tipos de mercadorias com membros da comunidade local. Esse fenômeno, denominado de autoconsumo, ainda representa expressiva participaçãp no consumo total, sendo típico de áreas rurais, e também contribui para dificultar o conecimento do real consumo de feijão no Brasil.

O consumo per capita médio mensal de feijão nas capitais dos Estados da região Centro-Oeste é cerca de 34% maior nas classes de renda mais baixas quando comparando com as classes de renda acima de 10 salários mínimos. Em termos absolutos isso significa redução de 400 gramas por mês. Nesses locais, o depoimento de 85% dos consumidores foi de que manteriam o consumo de feijão mesmo se ocorresse um aumento do preço do produto.

Alguns estudos mostram que o processo de urbanização explica mais da metade da redução no consumo no período compreendido entre meados da década de 1970 e final dos anos 80. De acordo com o senso 2000, cerca de 81% da população brasileira estava concentrada nas cidades, que abrigam 137 milhões de pessoas. Entre outros fatores, essa rápida urbanização, associada à acentuada inserção da mulher no mercado de trabalho, provocaram um efeito acentuado nas mudanças do hábito alimentar da população e originaram novas demandas quanto a qualidade, apresentação, facilidade e menor tempo de preparo dos alimentos. Outros estudos indicaram que, no período de 1974 a 1988, a redução no consumo de feijão deveu-se à mudança no hábito alimentar e não ao fator preço, afirmando que a renda per capita explicava apenas pequena parcela da variação. Comparando-se esses resultados, concluiu-se que, no período de 1974 a 1988, o decréscimo do consumo de feijão foi menor nas metrópoles do que a média geral no país.

O consumo per capita de feijão ao longo dos últimos 40 anos apresenta uma tendência decrescente da ordem de 1% ao ano. Porém, o decréscimo não ocorre de forma contínua, existindo oscilações entre os anos. Na década de 1960, estudos mostraram a queda de consumo associada a questões de clima, pragas e doenças e de outros problemas agronômicos, mais os de política agrícola, que afetaram a oferta do produto e preços, que eram considerados altos. Portanto, não se relacionou com mudanças nos hábitos alimentares da população. Já naquela época se faziam previsões de que o feijão era uma cultura sem futuro e que sua produção seria restrita aos agricultores de subsistência.

Os trabalhos são todos unânimes em comprovar a queda do consumo per capita de feijão no Brasil, entretanto sua magnitude não está bem dimensionada, não havendo consenso sobre as causas. A opinião de que as variáveis preço e renda não são as principais influenciadoras no comportamento dos consumidores tem sido referida por quase a totalidade dos pesquisadores.

Uma situação que requer atenção refere-se ao fato de que, no início do Plano Real, em junho de 1994, o consumo de feijão aumentou de 16 kg/habitante/ano, índice observado no período de 1990 a 1993, para 18 kg, mantendo-se nesse patamar pelos dois anos seguintes. No final da década de 1990, contudo, o consumo per capita voltou a cair para 16 kg. Esse fato induz a conjeturas sobre porque, após a implantação do Plano Real, o aumento verificado não manteve, como aconteceu com outros produtos. O balanço de três anos do Plano Real feito pelo Ministério da Agricultura mostrou que o consumo per capita de carnes aumentou de 57 para 65 quilos e o de leite de 111 para 138 litros por ano, com aumento nas vendas de iogurtes (98%), cereais matinais (223%), leite longa vida (148%) e consumo de bebidas esportivas (757%).

Há argumentos tradicionais utilizados para justificar a redução do consumo de feijão. Os economistas afirmam que o produto tem elasticidade de renda negativa, ou seja, à medida que a renda do consumidor aumenta o consumo do produto diminui. Por sua vez, outros afirmam que ocorreu um crescimento do preço real do feijão em comparação a outros alimentos. Outros ainda apontam a dificuldade de preparo caseiro e o tempo de cozimento que se contrapõe à necessidade de redução do tempo de trabalho doméstico. Além disso, há maior número de pessoas fazendo suas refeições fora do lar e a substituição do feijão por outras fontes de proteína, principalmente as de origem animal.

O estudo das tendências do consumo de feijão é relevante pelos seus aspectos econômico, social e cultural, pois um país como o nosso, que tem sua identidade cultural marcada por esse tipo de alimentação tradicional, deve valorizar os benefícios que esse alimento traz à saúde das pessoas. Esse assunto sempre esteve no rol de temas prioritários dos planejadores de políticas e, mais recentemente, em virtude da maior preocupação com a saúde, uma parcela dos consumidores passou a se interessar com mais veemência pelo tema. Esse grupo demonstra interesse pelas qualidades nutricionais, pelo processo, tecnologias e ingredientes utilizados na fabricação e aspectos da comercialização dos alimentos. Por outro lado, uma parcela dos consumidores tem optado pela modernidade, representada pelas marcas globais e fast food. A questão é se, em nome dessa modernidade, devemos desprezar um alimento tão nosso e que não apresenta problemas colaterais.

O cenário socioeconômico para a cadeia produtiva do feijão sugere que seus atores devem buscar alternativas mais adequadas às exigências do consumidor. Nesse contexto, pode-se citar a agregação de valor via processamento, oferecendo produtos semiprontos, como também a oferta de feijão orgânico. Outra alternativa em discussão, gira em torno da necessidade do país de aumentar suas exportações, visto que o feijão aparece como um produto potencial para conquistar o mercado internacional, ainda bastante restrito.

Vários outros fatores emergentes podem incentivar o consumo interno de feijão: a) os problemas sanitários atuais com os produtos de origem animal e a utilização do feijão como substituto protéico; b) importância dessa fonte de proteína para a população mais pobre; c) as características de efeito medicinal, protetor e terapêutico de doenças coronarianas e oncológicas apresentada pelo feijão decorrentes do baixo teor de gordura e alto teor de fibras.

Apesar de todos os percalços, a população brasileira, seja por motivos culturais, econômicos ou nutricionais, continuará consumindo o feijão nosso de cada dia. Pode-se inferir que essa leguminosa continuará sendo importante na alimentação do brasileiro. Contudo, os atores dessa cadeia produtiva devem ficar atentos e acelerar a busca de formas alternativas de apresentação e consumo do produto, adequando-se às exigências dos consumidores e sobretudo empenhando-se em mostrar que comer feijão é moderno e saudável.


Informações Complementares:

Adicionar à Pasta Feijão na economia nacional Apresenta um panorama do agronegócio brasileiro situando o feijão neste segmento da economia nacional. Aborda, além dos aspectos socioeconomicos e técnicos, seus reflexos na produção, comercialização, distribuição e no consumo desta leguminosa. Mais Detalhes

Adicionar à Pasta Cultura do feijoeiro no Brasil : características da produção Aspectos conjunturais da cultura; Características da produção; Qualidade, classificação comercial e manejo pós-colheita; Cenários para a cultura. Mais Detalhes
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